Mudar-se para o Brasil não começa no dia em que você pega o avião. Algumas providências podem ser tomadas ainda no exterior, enquanto outras serão muito mais simples depois da chegada.
Situação migratória, documentos, CPF, saúde, moradia, telefone, transporte ou meios de pagamento: não é necessário resolver tudo de uma vez, mas um pouco de planejamento pode evitar muitas complicações.
O objetivo deste artigo não é detalhar cada procedimento administrativo. Vamos apresentar os principais pontos a considerar antes da viagem e durante as primeiras semanas no Brasil, com links para nossos guias mais detalhados sempre que já tivermos abordado o assunto.
Sumário
Antecipar sua situação migratória
Antes de pensar na mudança, é importante saber em quais condições você pode entrar e permanecer no Brasil.
As regras dependem, entre outros fatores, da sua nacionalidade, do motivo e da duração da estadia e do tipo de residência pretendida. Entrar no país como visitante, portanto, não deve ser confundido com ter uma autorização de residência.
Se o seu projeto é realmente morar no Brasil, o ideal é analisar essa questão com antecedência e, principalmente, não esperar os últimos dias do período autorizado de permanência para começar a buscar informações.
Trabalho, investimento, reunião familiar, aposentadoria e outras situações podem envolver procedimentos e documentos diferentes. Por isso, não existe uma única lista válida para todos os estrangeiros.
Para quem pretende se estabelecer de forma permanente, contar com a orientação de um profissional especializado em imigração pode ser particularmente útil quando a situação exige um processo de regularização ou autorização de residência.
Preparar os documentos necessários
Parte da preparação pode começar antes mesmo de você deixar o seu país.
Dependendo do procedimento, podem ser necessários documentos como certidão de nascimento, certidão de antecedentes criminais, certidão de casamento ou outros documentos relacionados à sua situação pessoal.
Conforme a origem do documento e a finalidade para a qual ele será utilizado no Brasil, algumas formalidades específicas podem ser exigidas. Isso pode incluir apostilamento ou legalização, além de tradução realizada no Brasil por tradutor público quando necessária.
No entanto, não vale a pena reunir uma pilha de documentos sem saber exatamente quais serão necessários. As exigências variam conforme o procedimento e alguns documentos precisam ter sido emitidos dentro de determinado prazo.
O mais eficiente é primeiro identificar qual procedimento corresponde à sua situação e, depois, verificar a lista exata de documentos e seus respectivos prazos de validade antes de solicitá-los.
Obter um CPF
O CPF (Cadastro de Pessoas Físicas) é uma das primeiras coisas a considerar para quem pretende construir sua vida cotidiana no Brasil.
Ele é utilizado em inúmeras situações: procedimentos administrativos, contratos, compras, serviços financeiros, telecomunicações e relações com diferentes empresas.
Um estrangeiro pode obter CPF sem ser residente no Brasil. Também é possível realizar o procedimento no exterior por meio de uma repartição consular brasileira.
Ter o CPF antes da mudança pode, portanto, ser bastante útil.
O CPF, porém, não é um visto nem uma autorização de residência.
Obter um CPF no Brasil: para que serve e como fazer? →
Criar sua conta gov.br
Depois de obter o CPF, também vale a pena criar sua conta gov.br.
Essa identidade digital permite acessar diversos serviços públicos brasileiros pela internet.
Para quem está chegando do exterior, é importante entender que criar a conta não significa necessariamente ter acesso imediato a todos os recursos. O gov.br utiliza diferentes níveis de verificação — Bronze, Prata e Ouro — e alguns serviços exigem um nível mais elevado.
Se você pretende voltar temporariamente ao exterior enquanto ainda há procedimentos em andamento no Brasil, verifique seu nível e as possibilidades de validação antes de viajar. Poder acessar determinados serviços ou assinar eletronicamente um documento à distância pode ser muito útil.
Conta gov.br: para que serve e como funciona? →
Planejar sua cobertura de saúde
A questão da saúde também merece ser planejada antes da viagem.
Durante o período de transição, um seguro ou cobertura internacional adequado à sua estadia no Brasil pode ser uma primeira solução. Depois de se estabelecer, você poderá avaliar as diferentes opções disponíveis localmente de acordo com sua situação e suas necessidades.
Antes de uma estadia prolongada, também é recomendável verificar com antecedência as orientações de saúde relacionadas às regiões que pretende visitar e, se necessário, conversar com um profissional de saúde.
O Brasil é enorme: as necessidades e recomendações podem variar bastante conforme a região e o tipo de estadia.
Começar com uma moradia temporária
Para quem pretende morar de forma permanente em uma região, não recomendamos comprar um imóvel logo após a chegada.
Fotos, vídeos e alguns dias de férias não são suficientes para entender como é realmente viver em determinado bairro.
Nossa sugestão é começar com uma moradia temporária por pelo menos um mês, seja em uma locação por temporada, apart-hotel ou opção semelhante.
Aproveite esse período para viver normalmente: fazer compras, testar os deslocamentos, observar o bairro em diferentes horários, entender as distâncias e conhecer outras regiões.
Se decidir permanecer por mais tempo, uma locação de prazo maior pode ser o próximo passo.
Alugar antes de comprar permite conhecer melhor a região, com muito menos pressão, e tomar uma decisão imobiliária com mais segurança e conhecimento.
Preparar-se para falar português
Nas regiões turísticas, é natural encontrar pessoas que falam inglês e, às vezes, outros idiomas.
Mas, quando se vive de fato no Brasil, o português rapidamente se torna indispensável.
Um prestador de serviços, um vizinho, um funcionário de loja ou alguém em um órgão público não necessariamente falará inglês — e muito menos francês.
Não é preciso ser fluente antes de chegar. Aprender o básico antes da viagem e continuar estudando depois da chegada, porém, facilita muito a integração e as tarefas do dia a dia.
Ferramentas de tradução podem ajudar em determinadas situações, mas conseguir se comunicar diretamente faz cada vez mais diferença na vida cotidiana.
Obter um número de celular brasileiro
Não é necessário abandonar seu número europeu assim que chegar.
Pelo contrário, mantê-lo pode ser bastante útil caso seus bancos ou outros serviços europeus ainda o utilizem para enviar códigos de verificação.
Mas ter uma linha de celular brasileira rapidamente se torna prático, principalmente para usar dados móveis locais sem os custos de roaming e para acessar determinados serviços ou preencher formulários que exigem um número de telefone brasileiro.
Com um aparelho Dual SIM ou eSIM, as duas linhas podem coexistir perfeitamente durante esse período de transição. Assim, sua linha europeia continua disponível quando necessária, enquanto a linha brasileira fornece os dados móveis usados no dia a dia.
O WhatsApp também ocupa um espaço enorme na vida pessoal e profissional no Brasil. Sua conta pode continuar vinculada ao antigo número europeu enquanto utiliza a conexão de dados da nova linha brasileira.
WhatsApp no Brasil: muito mais do que um aplicativo de mensagens →
Organizar seus deslocamentos
As distâncias podem surpreender quem acaba de chegar ao Brasil.
A quantidade de quilômetros nem sempre é suficiente para estimar o tempo necessário para chegar a determinado lugar, e as opções de transporte variam bastante de acordo com onde você decide morar.
Durante as primeiras semanas, aplicativos de transporte como Uber, os meios de transporte disponíveis localmente ou um carro alugado permitem conhecer a região antes de decidir se realmente é necessário comprar um veículo.
No Rio Grande do Norte, por exemplo, quem mora em um bairro central de Natal terá necessidades diferentes de quem vive em uma área menos urbana ou mais afastada.
Por isso, procure entender seus deslocamentos cotidianos antes de investir em um carro ou uma moto.
Planejar seus meios de pagamento
Ao chegar ao Brasil, abrir uma conta bancária brasileira pode ser complicado enquanto sua situação de residência ainda não estiver regularizada. Em nossa experiência, os bancos que consultamos, incluindo vários bancos digitais, exigiam um RNM (Registro Nacional Migratório) para que um estrangeiro pudesse abrir uma conta.
Por isso, é importante ter alternativas para esse período de transição.
Serviços internacionais como Wise ou Revolut podem ser bastante úteis. Eles permitem continuar utilizando recursos mantidos no exterior, fazer conversão de moedas e pagar no Brasil com um cartão internacional.
Encontramos, porém, uma exceção interessante: o Banco Rendimento. No nosso caso, conseguimos abrir a conta totalmente online antes de obter o RNM, utilizando passaporte, CPF e comprovantes de renda do exterior.
A modalidade gratuita já nos permitia realizar pagamentos via Pix, algo particularmente útil no Brasil. Também era possível obter um cartão bancário optando por uma modalidade paga. Dessa forma, conseguimos rapidamente ter um meio de pagamento realmente brasileiro, enquanto os outros bancos que havíamos consultado exigiam o RNM.
Como ofertas, tarifas e condições de abertura podem mudar, é recomendável verificar diretamente com o banco quais são as condições vigentes no momento da solicitação.
Depois de regularizar sua residência e obter o RNM, o acesso aos demais bancos brasileiros se torna muito mais simples. A partir daí, você poderá escolher a instituição que melhor atende às suas necessidades e continuar utilizando o Pix, hoje um dos principais meios de pagamento do dia a dia no Brasil.
Organizar bem suas primeiras semanas
Uma mudança bem-sucedida não significa tentar concluir todos os procedimentos administrativos o mais rápido possível.
Preferimos pensar nessa adaptação por etapas:
Antes da viagem: verifique sua situação migratória, identifique os documentos necessários, organize sua cobertura de saúde e, se possível, obtenha seu CPF.
Ao chegar: instale-se em uma moradia temporária, obtenha uma linha de celular brasileira e acesso a dados móveis locais, crie ou verifique sua conta gov.br e comece a conhecer a região.
Durante as primeiras semanas: avance na regularização da sua situação migratória, entenda como serão seus deslocamentos, conheça os bairros que combinam com seu estilo de vida e, depois de obter o RNM, avalie a abertura de uma conta em outro banco brasileiro.
Só depois: tome decisões que envolvam compromissos maiores, como uma locação de longo prazo, a compra de um veículo ou, eventualmente, a aquisição de um imóvel.
O mais importante é não tentar reproduzir imediatamente no Brasil tudo exatamente como funcionava no seu país de origem. Primeiro, dê a si mesmo algum tempo para entender como as coisas funcionam no Brasil e na região onde pretende viver.
Esse período de adaptação ajuda a evitar alguns erros e, principalmente, permite construir aos poucos uma vida no Brasil que realmente corresponda ao seu projeto.


